Por Luciano Morais
“Só aqueles que têm verdadeiramente convicção dos seus fundamentos e pressupostos pode viajar pelo debate sem carregar o peso do sectarismo.”
Mauro Luís Iasi – Membro do Comitê Central do PCB
Após a onda inquisitória que provocou a minha expulsão e a do camarada Roberto Numeriano, além de uma verdadeira diáspora comunista no PCB em Pernambuco, sobretudo na cidade do Paulista, decorrente de divergências políticas e inadequação da realidade à linha política do partido, é preciso expor algumas questões para facilitar a compreensão dos fatos.
Não é confortável para um militante cortar o cordão umbilical partidário após quinze anos de militância. Sempre cumpri com entusiasmo as demandas do partido enquanto dirigente local, estadual e assistente político na maioria das municipais em que o PCB estava organizado em Pernambuco, bem como o histórico no movimento estudantil, dirigente sindical, ativista cultural e em todas as frentes de luta da solidariedade de classe e internacionalista. Costumava dizer que ingressei no partido no momento do seu renascimento após o racha com os liquidacionistas, em 1992.
A participação em quatro eleições como candidato deu destaque à minha atuação política em defesa incondicional das bandeiras de luta do PCB. No entanto, foi exatamente na disputa institucional que definhou esta relação tão intrínseca com o Partido Comunista Brasileiro, mas não foi em função de um mero debate eleitoral, e, sim, de divergências sobre a concepção de partido que emergiu durante a campanha eleitoral em 2012.
Minha expulsão se deu, segundo a alegação oficial, por “quebra do Centralismo Democrático”. O que vem a ser isso, afinal? Um instituto dos partidos comunistas que promovem exaustivamente o debate coletivo e seguem as deliberações definidas pela maioria. Este debate deve ter como orientação as resoluções partidárias. O caminho que a municipal de Paulista trilhou, aprovando em convenção o apoio à candidatura a prefeito de Sérgio Leite (PT), respeitou todas as instâncias do partido. Foi debatido e aprovado pela militância, homologado pela direção municipal, pela estadual, e, devidamente encaminhado para instância máxima do PCB, o Comitê Central (CC), que silenciou diante de qualquer suposto desvio que pudesse anular esta aliança. Portanto, não houve quebra do Centralismo Democrático. Houve, sim, uma intervenção autoritária e extemporânea após procedimento desidioso dos órgãos dirigentes, e do próprio CC, mas o Secretário Geral preferiu, como um Robespierre enlouquecido, cortar cabeças, como vinha orgulhosamente fazendo por todo país, e usar o poder da autoridade para determinar arbitrariamente a retirada da candidatura.
Acusaram-me de ferir a disciplina partidária, provocando a sanha reacionária de uns dirigentes e a covardia de outros. Ao que me consta, não é a disciplina que fundamenta a luta pelo socialismo. Este princípio é muito importante no processo de luta. Mas é, fundamentalmente, um elemento essencial ao militarismo, que é quase sempre autoritário e conservador. Não é a disciplina que legitima o processo de formação do novo homem para além da superação do capitalismo, mas sim a solidariedade, a fraternidade, o respeito à dignidade da pessoa humana e todos os elementos capazes de humanizar as relações e comportamentos, independentemente de formas, institutos ou convenções sociais constituídas na era do capital.
A disciplina, no entanto, não tem sido no partido instrumento de propulsão à luta, nos últimos tempos. Ela já havia sido esquecida, pois não a utilizaram para obrigar ao cumprimento das “tarefas revolucionárias” os militantes do PCB em geral. O partido, ao invés disso, vem se afundando num relativismo teórico que está impedindo o coletivo de criar bases sólidas o suficiente para mover-se ao engajamento na luta política concreta. Sendo assim, sem a práxis necessária, a teoria perdeu a capacidade de criticar a prática. Perdeu a capacidade de dialogar com seu objeto de desejo inacessível e idealizado: o povo.
Dois fatos neste processo de ruptura por divergências na concepção de partido têm relação direta com o uso arbitrário das idiossincrasias partidárias para impor sanções: a convocação de uma reunião por parte de novos militantes recém-chegados ao partido, e o lamentável episódio do patrulhamento ideológico fascistóide na reunião em Jardim Paulista. No primeiro caso, a inércia (já tradicional) da organização incomodou alguns militantes que convocaram à revelia da direção uma reunião para destravar o coletivo e botar o partido nas ruas. A iniciativa, ao invés de ser tratada como atitude necessária para eficácia da ação política do partido, causou um verdadeiro desconforto aos dirigentes, que se acharam ofendidos com tal suposta “insubordinação”. Ao final, depois de muita retórica com relatos cansativos da longa e abnegada marcha de cada dirigente (em outras palavras, uma “carteirada política”), foi preservada a autoridade dos cargos e, para manutenção do status quo, a “militância insurgente” foi neutralizada.
O outro momento foi dramático. Após ter resistido à orientação de retirar politicamente a campanha das ruas, mantive a agenda ao lado de bravos companheiros que, sendo ou não das fileiras do PCB, assumiram esta tarefa conosco sabendo que ficara ainda mais difícil o trabalho. Numa reunião no Bar Boca de Forno, em Jardim Paulista, fomos surpreendidos por quatro dirigentes do partido. Como se fossem os quatro cavaleiros do apocalipse, acomodaram-se com postura cínica e hostil nas últimas fileiras e acompanharam cada intervenção minha, a fim de censurarem qualquer parte que “ferisse” os dogmas do PCB. Fui transportado à época dos militares e me senti vítima de uma operação do DOPS.
Não é possível que uma organização que foi tão atingida pela ofensiva de órgãos de repressão seja capaz de adotar métodos tão desprezíveis na esfera política e social. Este patrulhamento voltou a acontecer de forma mais asquerosa quando das investidas de contra-campanha executada porta a porta pela direção do partido, numa reprodução pitoresca do romance jurídico O Caso dos Denunciantes Invejosos, de Dimitri Dimoulis. Isso mostrou por si mesmo o ressentimento profundo desse grupo, afinal, a única transgressão minha foi manter a candidatura e desobedecer à orientação do partido, pois na prática continuava apresentando o discurso de construção do poder popular defendido pelo PCB. Foi lamentável.
Como se não bastasse o trauma de ser arrancado daquilo que motivou minhas ações na última década e meia, mesmo mantendo em essência o mesmo conteúdo político e ideológico durante o restante da campanha, sofri a retaliação sumária mais mesquinha que qualquer patrão pode tomar contra o trabalhador: a justa-causa imotivada. Desde fevereiro de 2010, vinha desempenhando a função de “profissional do partido”, atividade sem vínculo formal que me rendia uma remuneração para desenvolver algumas tarefas essenciais à organização. Após a decisão que contrariava a determinação do partido em 22/08, fui informado por telefone pelo secretário político estadual (Aníbal Valença), que eu estava desautorizado a recolher as contribuições dos militantes ao partido, destituído do cargo (demitido), e que não receberia mais no início de setembro. É importante frisar isto porque estamos falando de uma instituição defensora dos trabalhadores, e, mais do que uma exigência formal trabalhista, devemos destacar a importância do gesto humano e solidário que aquele momento exigia. Mas, ao invés disso, foi imposta uma punição descabida sem aviso prévio que comprometeu o sustento da família de um até então camarada, que contribuiu de forma honesta e comprometida para o crescimento e fortalecimento do partido. O estrangulamento econômico, este sim, é uma grande degeneração de valores para os comunistas, e supera qualquer coligação eleitoral espúria, se este fosse o caso.
Vejo ódio, fanatismo e irracionalismo em ações que são justificadas, sobretudo na disciplina. É como se fosse imprescindível destacar um princípio sagrado, posto acima de qualquer discussão, imune a qualquer dúvida, capaz de funcionar como bússola quando o barco tivesse de manobrar em meio à tempestade, um valor supremo que nunca se degradasse e pudesse alimentar incessantemente a chama da fé no coração dos combatentes (Konder, in Introdução ao Fascismo). Este sectarismo político é característica de organizações que não aceitam a ineficácia de suas resoluções diante do movimento vivo das ruas. Por isso, a qualquer questionamento que comprometa o idealismo radical de um grupo que hoje está isolando o PCB, seus teóricos da revolução aqui e agora começam logo a “depurá-lo” através dos expurgos. Ou seja, o princípio ofendido não foi a disciplina, e sim a realidade idealizada, que torna possível a teoria criada para a compreensão do mundo real.
O PCB vem buscando formular a tese perfeita, mas não submete a teoria à prática. A cada congresso afunila sua compreensão do mundo social e político, e torna mais inflexível a tática, o que vem engessando o partido, levando às últimas conseqüências o entendimento da organização de quadros. E tudo isso numa visão arrogante em relação aos “simples mortais”, que não compreendem bem as vicissitudes da luta de classes: deixem pra gente que de teoria a gente entende tudo. Não obstante, ziguezagueando num radicalismo dissimulado, tentando esconder sua fragilidade tática (e teórica), evidenciam que, muitas vezes, o radicalismo de um coletivo é a expressão inconsciente da busca de afirmar uma força e poder que julgam possuir, mas que, no fundo, é um mascaramento de suas debilidades e inconstância político-institucional (Numeriano, in O culto a ilusão das formas). Não há como intervir em questões sociais enquanto formos estranhos às lutas cotidianas. Não nos reconhecemos nas batalhas do dia a dia do trabalhador comum, haja vista a página oficial do PCB, que parece a de um órgão informativo do movimento comunista internacional e reserva pouco espaço aos embates do povo trabalhador.
Por fim, lamento muito este movimento no PCB, que cultua com toda razão grandes heróis da classe trabalhadora na história partidária, mas ao mesmo tempo, crucifica seus filhos em praça pública, condenando-os sumariamente em autos inquisitoriais ou isola-os em ritos de purificação. Provavelmente o PCB levará um tempo para enxergar que contribuiu com o ceticismo crescente no seio da sociedade, talvez amparado na possibilidade do recomeço, do eterno retorno. Mas quando as possibilidades se apresentarem novamente numa nova roupagem, as condições objetivas e subjetivas levarão a outra leitura equivocada, pois estarão sempre esperando que a realidade se encaixe na sua teoria. Demorarão um tempo para admitir que contribuíram por omissão com a composição populista e assistencialista da Câmara de vereadores de Paulista e quando perguntarem qual o saldo positivo da eleição em 2012, dirão, do alto do fanatismo e da falsa consciência: preservamos a coerência do partido. Será? Depuraram em Igarassu, em Afogados da Ingazeira, em Jaboatão dos Guararapes e expulsaram alguns outros neste período eleitoral. Este é o saldo: a transformação do PCB num partido supostamente puro e acima da subjetividade do ser humano e social? Esta eugenia política não cabe numa organização que deve ter o seu lastro na base social e no mundo do trabalho, e não na mentalidade pequeno-burguesa revoltada e ressentida.
A consciência de classe e a disposição de luta que adquiri nessa trajetória são, é claro, pessoais. Eu as levarei comigo nas batalhas que continuarei travando ao lado dos trabalhadores e dentro de um partido político onde possa desempenhar o princípio da solidariedade e do espírito popular da luta social. Agradeço a demonstração de amizade e confiança das pessoas que abraçaram esta “causa perdida”, pois sabiam inconscientemente que o aprendizado não viria apenas com a vitória, mas com o processo de resistência. Muitos deles nunca se envolveram numa causa política diretamente, mas perceberam no momento certo que é preciso lutar a luta. E nós lutamos.
Um Forte Abraço.
Luciano Morais
Paulista, 26 de outubro de 2012.

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